domingo, 17 de março de 2013

Episódio 01


A Pequena Dama


     Sentada no segundo degrau da escada, Alexia olhava o pequeno cemitério que ficava perto da garagem. Ela era uma menina muito esperta e compreensiva. Talvez, madura demais em relação às outras meninas de sete anos de idade. Sabia que aquela lápide maior e mais bonita, era a de seu pai, o qual ela não chegou a conhecer. Sua mãe lhe contou, certo dia, enquanto bebiam suco na mesa da cozinha, que Ulisses Alves II havia morrido eletrocutado ao tentar consertar um aparelho de som retrô que ele usava para ouvir músicas enquanto escrevia seus Best-Sellers. Porém, havia algo de estranho no modo como a mãe lhe contava a história. Alexia percebia nos olhos de sua mãe um ar de dúvida, como se houvesse acabado de lembrar de que tinha algo a resolver toda vez que falava no assunto da morte de seu pai. Além disso, algo no tom de sua voz, não deixava Alexia acreditar completamente que seu pai não estava vivo, mas sabia que ele estava enterrado ali, naquele pequeno cemitério nos fundos da bela casa onde morava desde que nascera. De qualquer forma, Alexia tinha sempre muita coisa para fazer e nunca ficava muito tempo pensando em um assunto que não faria a menor diferença prática em sua vida. Talvez a dúvida no olhar perdido de sua mãe não passasse de um mecanismo de defesa. Por dentro sua mãe devia sofrer bastante.

    O vento gelado fustigava o seu rosto pálido e frágil de criança. Estava preocupada com seu cabelo, que poderia ficar ressecado se continuasse exposto àquela ventania.

    Entendiada, abriu mão de ficar sentada naquele degrau frio, olhando aquele cemitério monótono e completamente fora de contexto. Deveria haver um jardim ali e não um assustador canteiro de mortos. Levantou-se e entrou pela porta da cozinha, andando distraída, atraída por seus pensamentos que lhe sugeriam milhões de atividades para aquele sábado. Sobressaltou-se com um gritinho quando deu um encontrão forte com o mordomo da família.
    - Desculpa. - disse ela, sem nenhuma emoção.
    O mordomo sorriu e ajustou o seu monóculo para observar a pequena Alexia atravessar a sala de jantar a passos firmes e estudados, dignos de uma moça educada às maneiras britânicas. Com classe, ela contornou o corrimão para subir a escada que levava ao segundo andar da casa, onde ficavam os quartos. Com aquele casacão vermelho, maneiras delicadas, precisas e elegantes, com seu tom frio e sua concentração aguda em tudo oque fazia, a menina parecia uma mulher adulta presa no corpo de uma criança delicada.

    Poucos minutos depois, Alexia desceu com seu material de pintura e levou tudo para a varanda para começar a pintar um belo quadro. Ela era muito disciplinada, concentrada e aprendia tudo muito rápido. A pintura ficou linda e a menina muito orgulhosa.








 "Estava convencido de que se conhecia muitíssimo bem: explorava cada cantinho, cada brecha do próprio psiquismo com uma atenção que hoje em dia não dedicava a nenhuma outra atividade. Passava horas se indagando sobre os seus impulsos, os seus desejos, os seus medos, tentando distinguir os que eram verdadeiros dos que lhe tinham sido inculcados pela educação. Examinava os próprios apegos (tinha certeza de que não conhecia ninguém que fosse tão honesto consigo mesmo, pois todas as outras pessoas se deixavam levar pela vida afora, meio entorpecidas) e tinha chegado a algumas conclusões."  
(trecho de Morte Súbita, de J. K. Rowling)





4 comentários:

Carolina Maia disse...

Uli, achei incrível o primeiro episódio. As descrições me fizeram criar imagens bem nítidas fazendo a história ficar ainda melhor. Gostei dos detalhes como o fato dela ficar com medo do cabelo ficar ressecado. Coisas simples que fazem com que a Alexia fique mais real. Achei engraçado o fato da ligação com a foto do THE SIMS. Ontem mesmo disse a uma amiga que a vida parece um the sims. Onde cada vez que conquistamos uma pessoa ou uma habilidade, subimos a "barrinha". Teoria estranha. Mas enfim, muito bom mesmo. Só uma crítica: espero ver coisas mais estranhas e absurdas nos próximos. Gosto disso. Um beijo, Carol. http://reinventingstars.blogspot.com.br

Ulisses Alves disse...

Muita coincidência. Outro dia estava pensando a mesma coisa sobre como o The Sims se assemelha à vida real. Não vou entrar em detalhes, mas é muito parecido mesmo. Agente dorme, o estômago vai esvaziando e agente acorda com fome. Agente come e vai ficando com vontade de ir ao banheiro. Quanto mais agente interage com alguém mais agente ganha a afeição dela e quando gente se distancia a amizade fica meio longínqua. Etc, eu, particularmente acho muito igual mesmo, tirando as partes exageradas, que por ser um jogo tem que ter aqueles elementos meio exagerados e tal. Inclusive, aos poucos, vou trassar esse paralelo entre o jogo e a vida real.

Justamente por querer dar um tom de realismo à história, eu estou usando elementos fantásticos como situações e personagens sobrenaturais e objetos e atividades estranhas com cautela. Mas já decidi não economizar. Ao longo da história a coisa vai ficando mais emocionante. Pode deixar. Haha

Obrigado pela crítica. Beijos!

Agnes Carvalho disse...

Parabéns Julisses!
Continue assim que está ficando legal!! =)

beijo!

Ulisses Alves disse...

Obrigado Agnes! Vou caprichar cada vez mais nos próximos. Obrigado.


Beijos.