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domingo, 28 de julho de 2013

Episódio 7 - Season Finale

Fantasmas Retroativos

Deitado em cima do telhado da casa, achando ainda ser o fantasma dourado, Ulisses ficava quase invisível naquela tarde ensolarada. Sentia com sua inteligência o vento gelado assoprando a cidade e seu corpo fantasmagórico. Mas não podia apreciar a sensação física do sopro frio e invisível que percorria as ruas e calçadas e os telhados da vizinhança, fazendo cócegas nas árvores, fazendo-as se contorcerem divertidamente. Perdido naquele infinito azul, Ulisses se sentiu tão em paz que perdeu a noção do tempo, do espaço, da vida e da morte. Percorreu toda a sensação de existência, mas tomou cuidado para não ir muito longe, teve medo de se perder novamente em outra viagem astral. Sua família não compreenderia, naturalmente, e ficariam todos chateadíssimos com ele novamente. Quando um pássaro passou e o despertou do devaneio celestial, lhe veio à consciência a decisão de esclarecer tudo com a sua família. Faria um churrasco no quintal naquela noite e todos comeriam cachorros quentes, picanha, linguiça, pão com pasta de alho e cebola na brasa.
Era sábado e Ana estava no trabalho, mas Alexia estava em casa, deitada em sua cama, perto da janela, lendo um livro. O vento entrava pela janela e ficava dando voltas agitadamente no quarto da adolescente. Brincava, vez por outra, com o cabelo dela e a menina achava muito divertido. Estava lendo Cinzas, um livro de romance escrito por seu pai pouco antes dele morrer eletrocutado. Na verdade, esse livro ganhava uma aura especial, justamente por ter sido o último livro escrito por Ulisses antes de sua morte. Alexia se encontrou perdida na história de um amor impossível entre um cinegrafista profissional e uma empregada doméstica. A história se passava em sua cidade e isso à tornou mais propícia a sentir-se mais próxima da história que estava lendo. Na história, por passarem tanto tempo ocupados com seus respectivos trabalhos, procurando arrumarem dinheiro o suficiente para construírem uma vida juntos, os personagens deixaram, descuidadosamente, o tempo passar. Quando se deram conta já eram velhos demais para apreciarem as coisas que os atraíam quando jovens. Ainda tinham, cada um, seus prazeres na vida, porém, seus gostos eram por coisas novas e específicas para cada e assim, nunca mais se sentiram próximos o suficiente para viverem juntos, apesar da vontade que não passava, na verdade, de uma meta a ser cumprida. Um resquício do desejo intenso que tiveram quando na parte mais intensa de suas vidas. Quando, enfim, ficaram juntos, a moça faleceu na cama do homem, quando estavam prestes a ter sua primeira relação sexual juntos. Alexia chorou durante diversos momentos do livro. Andava meio sensível emocionalmente.
No final da tarde Ulisses ligou o som bem alto dentro da casa, para que ficasse no volume ideal lá fora no jardim. Assim, eles poderiam criar um clima divertido e cinematográfico enquanto conversavam sem ter que gritar. Acendeu, pela primeira vez em mais de uma década, a churrasqueira da varanda e começou a assar a picanha e as salsichas. Atraída pelo cheiro delicioso, Ana foi até a varanda e sorriu ao ver seu marido fantasma utilizando a churrasqueira. Lá pelas nove da noite, Ana, Alexia e Ulisses estavam na mesa do jardim comendo e conversando. Ulisses comia picanha com farofa e molho a campanha. Ana devorava com vontade a sua picanha com arroz branco, farofa e uma salada de maionese com bastante azeite. Alexia degustava, satisfeita, um cachorro quente e bebia suco de plasma de caixinha enquanto seus pais bebiam cerveja Note. Uma cerveja criada por Ulisses e uma amiga da vizinhança. Era uma cerveja específica para o inverno. No centro da mesa, uma panela com água fervente borbulhava com a garrafa escura da cerveja em seu interior. Com a cerveja quente, Ulisses pegava-a com o suporte e servia a caneca de madeira que Ana tinha na mão e depois servia-se generosamente. - Gente. - começou Ulisses. Por dentro estava ansioso e inseguro, mas tinha consciência que de por fora ninguém podia dizer. - Gostaria de colocar as coisas em ordem hoje, ok? Queria conversar sobre nós com vocês. Alexia não disse nada, mas não pareceu incomodada com a proposta do pai, apesar de, naturalmente, um pouco entediada. Ana estava bastante contente e por isso simplesmente concordou, saboreando sua deliciosa refeição sob um incrível luar de inverno. - Bom... Ana. Eu gostaria de dizer que te amo. E estou disposto a ter uma vida maravilhosa e repleta de emoções e alegrias ao seu lado. Sem saber o que responder, Ana simplesmente balançou a cabeça afirmativamente. Alexia, por sua vez, fingiu ignorar. Mas sabia que a próxima fala de seu pai seria dirigida à ela. - E eu preciso saber que você está feliz, Alexia. E também preciso saber o que vocês precisam que eu explique para que todos nós possamos ficar em sincronia. - Ah, pai. Eu estou bem. - respondeu Alexia. Ulisses olhou para Ana e vendo que ela só lhe olhava sem nada dizer, ele encheu o copo dela de cerveja. Mais tarde, quando Ana já estava bêbada e disposta a conversar mais e Alexia um pouco menos entediada, Ulisses procurou instigar nelas a vontade de se exporem à sua própria exposição. - Gente, vamos começar do início. Eu morava em uma casa que mais parecia uma cabana nos recantos longínquos dessa cidade. Em meio à arvores obscuras, mas tinha uma linda pontezinha sobre um laguinho charmoso na entrada. Morei sozinho lá por um bom tempo e escrevi alguns livros. Os que os mais gosto, pelo menos. Uma das minhas melhores amigas, cujo o nome, vergonhosamente, eu não me lembro, era a dona dessa casa aqui. Eu vim em uma festa aqui uma vez e conheci o marido dela. Uma pessoa maravilhosa. Ela faleceu um dia, já bem velhinha e eu nunca mais soube do marido dela. Conforme eu consegui ganhar mais dinheiro com as vendas dos meus livros, eu contratei uma empregada doméstica para limpar as coisas em casa. Ana e Alexia ouviam a história com genuíno interesse. - Então... ela era uma jovem muito bonita e eu gostaria de ter uma família. Estava cansado de ficar sozinho. Ulisses encheu o seu copo e o de sua esposa. Alexia pediu que ele pausasse a história, pois queria ir até o porão pegar uma garrafa de vinho com plasma. Enquanto Alexia foi lá embaixo, Ana perguntou sobre Cibele. - Já vou chegar lá, querida. Espere Alexia voltar. Quando Alexia voltou, Ulisses abriu para a filha a garrafa de vinho e serviu uma taça para a menina. - Bom... voltando à história. - Ulisses deu uma pausa. - onde eu estava mesmo? - Sua nova empregada doméstica, pai. - ajudou-o Alexia. - Ah, sim! Isso. Bem, então eu achei essa menina muito bonita e decidi que gostaria de ter uma família com ela. Ela correspondeu e nós começamos a ter um romance. Ana se sentia um pouco desconfortável com essa parte da história e Ulisses sabia. Mas gostaria que Ana se sentisse confiante e confortável. Por isso, continuou a história. - Então saímos por algum tempo, mas nunca tivemos a oportunidade de fazer um filho ou filha. Ana e Alexia se sentiram visivelmente desconfortáveis com essa informação direta. Ulisses ignorou e continuou: - Então eu comprei esta casa e me mudei para cá. Convidei Cibele para vir me visitar e então percebi como ela havia envelhecido. De qualquer forma, ela continuava charmosa e linda aos meus olhos apaixonados. Então, precisamente na noite em que tentamos ter uma relação mais íntima, na noite em que nos unimos na cama e tencionamos começar uma família, aquele treco encapuzado desceu em meu quarto e a solicitou. Ela, de bom grato, foi-se. - Que triste. - disse Ana sarcástica. Ulisses percebeu uma luz branca surgir atrás de si e o olhar indiferente de Alexia só confirmou a presença de Snypes. Ulisses imaginou-se levantando-se com normalidade, virando-se, em sua imaginação, de maneira comum, deixando Snypes confortável com seu sorriso triunfante no rosto resplandescente e transparente e então acertando-o no nariz com força. Um brilho, então, explodiria do impacto dos dois fantasmas e Snypes iria parar no cemitério. Ana arregalaria os olhos e serviria-se de mais bebida. Alexia sorriria e terminaria sua taça de vinho com plasma. Ulisses imergiria na grama, desaparecendo e reaparecendo subitamente segundos depois enquanto Snypes se levantava. Ulisses surgiria, então, do chão, agarrando Snypes e carregando-o para o céu noturno em altíssima velocidade. Ana e Alexia assistiriam o decolar dos fantasmas em uma velocidade absurda. Como uma estrela cadente incandescente eles subiriam aos céus até parecerem um pontinho brilhoso longínquo. Na lua, Ulisses soltaria Snypes e lhe daria um chute no rosto com força, fazendo-o voar até uma colina. - Eu quero que você pare de me encher a paciência, Snypes. Fui claro? Snypes estaria assustado e concordaria. - Eu sei que você vai voltar e você sabe o que vai acontecer se você voltar. Dito isso, Ulisses pularia e voaria em direção ao seu planeta. Chegando na cidade, puser-se-ia a caminho de sua casa. Chegando em casa, após terminar sua aventura mental, ansioso, queria resolver logo a questão. - Olhem, minhas queridas. Eu só quero que vocês entendam plenamente que eu só quero ser feliz e fazer feliz quem me cerca. Só isso. E além disso, quero que vocês entendam que ser feliz é mais importante do que tudo. Isso pode parecer vago, mas é o essencial.
Depois que as meninas foram dormir, Ulisses considerou suas palavras e decidiu ir até o cemitério. Contemplou em dúvida a lápide de Cibele. Estava certo de que a deixaria descansar em paz, mas se lembrou de todo o amor interrompido. Os sentimentos verdadeiros da época terminal em que escrevia Cinzas tomaram consistência em seu coração. Algo como o passado lhe cairia bem. Pensou no que Ana iria pensar, em como Alexia reagiria, em como iria explicar tudo para Cibele e como ele próprio lidaria com toda essa revolução, mas seu subconsciente falava mais alto, muito embora ele não pudesse ouvir distintamente, que ele deveria simplesmente buscar o que lhe agradava. No dia seguinte, amanheceu em sua cama, pensando no que havia feito na noite anterior, mas não conseguia se lembrar de nada. Contudo, conseguia saber em sua mente que havia bebido bastante cerveja com sua esposa e que havia ido ao túmulo de Cibele. Também, finalmente, começou a se dar conta de que havia se tornado novamente uma criatura feita de carne, osso e tudo mais. Porém, infelizmente não conseguia se lembrar do momento em que se tornara aquilo que ansiava voltar a ser. Adormeceu, portanto, novamente, nessa tentativa.





""Não fique triste," ele disse, dando-lhe um abraço. "Eu vou carregar esta asa com orgulho, como símbolo do amor de uma maravilhosa irmã.""
(Hans Christian Andersen, em Os Cisnes Selvagens) 

sábado, 20 de julho de 2013

Episódio 6

A Praia e a Luz da Lua

A lua estava linda e dominava o céu da noite daquela quinta feita. Ana estava encostada na motocicleta com os braços cruzados sobre os seios enquanto observava o universo até onde sua visão alcançava. Não era muito, mas era o suficiente. Podia ver com clareza estrelas que estavam à anos luz dali, um brilho que vinha de anos luz atrás. Ana se sentiu deixava para trás. O som das ondas que quebravam na praia ecoavam lindamente naquela noite onde o vento frio soprava seus cabelos e sacudia sua roupa. Ana fechou os olhos e decidiu observar a parte interna de suas pálpebras, contemplando o infinito mais próximo que podia acessar. Ana queria se encontrar novamente. Ao menos, gostaria de encontrar o local no tempo onde havia se perdido. Constatou, num momento, que na verdade, foi seu mundo que a perdera de vista. Ela sabia exatamente onde estava, sempre soube. Porém, sua vida, havia se desencontrado de seus desejos e isso a deixou desconexa das satisfações que flutuavam pela cidade. Ulisses nunca fora mais do que uma satisfação flutuando, percebeu Ana. Segurá-lo e segurar-se à ele fora um erro. Amá-lo, sem estimar um período para isso, ainda mais um período de tempo tão longo fora um equívoco desastroso para si mesma e para a sua família.
- Ana. - chamou Ulisses. - Eu te amo! - completou.
Ana foi pega de surpresa e não soube o que dizer.
- Não sei o que dizer, Ulisses. - revelou, perplexa. - Não precisa dizer nada, Ana. Eu simplesmente te amo. Naturalmente, Ana sucumbiu à essas palavras.
As ondas quebravam-se na praia e esse som encheu Ana de entusiasmo e o entusiamos de Ana entusiasmou Ulisses. - Vamos para casa fazer uma nova filha? - convidou Ulisses. - Como sabe que será uma filha, Ulisses? - perguntou Ana divertindo-se com a empáfia de seu marido. - Eu não sei. Ana tentou abraçar e beijar seu marido romanticamente, mas seus braços ultrapassaram seu conjugue e cruzaram-se no ar. Porém, Ana não se importou nem um pouco com essa situação e confiou em sua imaginação. Quando fechou os olhos, envolveu o pescoço de seu marido e beijou-o calorosamente. Um homem vestido de terno, gravata e sapatos muito bem limpos observava uma moça loira e linda beijar apaixonadamente um semelhante dourado na areia da praia, sob um luar incrível, encostados à uma incrível motocicleta.





"Há doenças que caminham na escuridão; e há anjos exterminadores, que voam envoltos nas cortinas de imaterialidade e uma natureza reservada; a quem não podemos ver, mas cuja força sentimos, e afundamos sob suas espadas."
(Jeremy Taylor, "Sermão de Um Funeral", em Cidade dos Anjos Caídos, de Cassandra Clare) 

domingo, 7 de julho de 2013

Capítulo 5

Desejo Tardio
No fim da tarde, Ulisses abriu seu computador. Não estava com vontade de ler e nem de escrever nada. Também não queria jogar nenhum jogo, abriu seu companheiro de aventuras de faz de contas simplesmente por que não sabia aonde mais poderia ir. Se sentia um péssimo marido e pai, sentia-se egoísta e solitário. Ao seu modo ele amou sua família. Contudo, agora se perguntava o que podia ser chamado de amor. O amor seria algo decorrente de suas atitudes motivadas de bondades direcionadas à uma pessoa específica, visando torná-la não só especial, mas exclusiva. Ou, talvez, o amor fosse esse algo místico e poderoso. Essa força é maior do que um ser humano é capaz de compreender e explicar. Algo que nos cerca e nos faz refém. Porém, sendo assim, as pessoas não mereceriam crédito algum por sentirem amor por alguém, visto que este seria um sentimento que assalta o indivíduo e o arrasta pelas circunstâncias sem que esta pessoa tenha escolha. Contudo, Ulisses não estava com paciência para pensar no amor. Ele parou e pensou que a melhor opção era repassar as situações, identificar os problemas e avaliar as possibilidades de resolução. Eram seis e meia da tarde quando Alexia acordou. Sua garganta estava seca, sua cabeça doía demais e seu corpo parecia fraco. Era a famosa ressaca da qual Alexia tanto havia escutado falar. Não gostou nada de conhecê-la pessoalmente. Levantou-se cambaleante e foi até o banheiro vomitar. A fraqueza do corpo lhe fez voltar para a cama e deitar. A menina prometeu a si mesma que jamais beberia novamente. Tanto Ana quanto Ulisses ouviram sua filha vomitando. Ambos chegaram juntos no quarto da menina. Quando concordaram, em silêncio, que ela estava relativamente bem, sem dizer palavras, cada um seguiu um caminho diferente. Ulisses voltou ao seu escritório e Ana desceu as escadas até a sala de estar. Ana recostou-se no sofá da sala de estar e ficou pensando em como se sentia solitária e distante de sua família. Realmente estava chateada com Ulisses. Entretanto, estava mais chateada consigo mesma também. Ulisses passou as mãos pelo cabelo, bagunçando-os e gostando do resultado que via na webcam do computador. Quando fechou a janela da webcam identificou um arquivo de texto salvo na área de trabalho. O nome do arquivo era "Como Matar Um Fantasma". Um sentimento muito ruim tomou conta dele. A seguir ele abriu o arquivo dando um duplo clique sobre o maldito nome. Leu apenas o primeiro capítulo e foi tomado por uma sensação de traição. Quando encontrou Ana, momentos depois, no sopé da escada, fitou-a com um olhar que ela soube ler como: "Então é assim que você me vê?". Ana, compreendeu imediatamente a mensagem que Ulisses trazia no olhar e, apesar de sentir-se vítima, entendeu que agora, ela era a que ofendia. Ulisses, mantendo seu olhar fixo nos olhos de Ana deixou-se imergir no degrau e sumir na escada. Aquele momento pareceu uma eternidade para Ana. Estava tudo quieto de madrugada enquanto Ulisses repousava em seu túmulo. Debaixo da terra era aconchegante e morno. Ali, perto de raízes de plantas mortas e semente a germinar, o fantasma de Ulisses sentia a vida na sua essência. Contudo, um barulho lhe chamou atenção. Na base de sua lápide, Ulisses ergueu sua cabeça acima do solo. Uma fraca luz vindo do fundo do quintal chamou a atenção do homem vestido de preto na escuridão. Assustado, o homem esbarrou o pé no latão de lixo que ficava debaixo da janela de Alexia. Esta acordou, ainda tonta e enjoada. Cambaleante, foi até a janela e observou o homem a correr atrapalhado com o fantasma dourado de seu pai em seu encalço. Alexia divertiu-se assistindo seu pai assombrar o homem. Ulisses, por sua vez, divertiu-se demais assombrando o rapaz de termo preto que estava a bisbilhotar sua residência na madrugada. Contudo, o rapaz conseguiu escapar, deixando o fantasma a reluzir na calçada às gargalhadas. Alexia que observava tudo da janela de seu quarto sorria para seu pai brilhante na calçada. Depois disso, ela correu para o banheiro para vomitar.

Quando terminou, a genia que ainda lhe devia um desejo, lhe esperava no quarto com um sorriso gentil. Ana sentiu um formigamento no estômago e uma deliciosa sensação de bem estar.
- Você está pronta para fazer seu desejo mais importante? - perguntou a genia.








"Oh! Deixa que teus olhos fitem bem os meus para recordar, A história triste de um amor nascido em ondas do luar... Olhos que dizem bem e sem poder falar o quanto é desditoso amar..."
(José Mauro de Vasconcelos, em O Meu Pé de Laranja Lima) 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Episódio 4

Os Reflexos Cintilantes da Escuridão dos Sentimentos Genuínos
Cansada e ainda demasiadamente estressada, Ana despediu-se da amiga que lhe dera carona do trabalho até sua casa e começou a caminhar tensamente pelo caminho entre a calçada até a escadinha que levava à porta de entrada de sua casa. Olhando para o lado, involuntariamente, percebeu a lua, que estava gigantesca naquela noite. Ana sentiu uma grande sensação de alívio inexplicável naquele instante. O impacto que aquela visão teve em sua noite foi tão instantânea e poderosa que deixou Ana um tanto atordoada. Olhando para trás, num impulso bobo e distraído de saber se estava sendo observada por algum vizinho ou passante, quase não percebeu a presença de um homem vestido com calça, sapatos e terno pretos do outro lado da calçada. Com a cabeça curvada sobre as mãos, ele acendia, com dificuldade, um cigarro. Estava ventando bastante naquela noite. Ana tentou parar de olhar antes que o homem a visse o observando, mas foi tarde, pois, o homem já a estava observando antes de ela notá-lo. Os olhos do homem, claramente estavam direcionados à moça. Ana estava tão cansada que simplesmente se virou e caminhou até a porta de sua casa. Mas enquanto procurava a chave correta, Ulisses atravessou a porta com um olhar furioso que somente Ana podia identificar, qualquer outra pessoa viria uma feição comum e despreocupada. - Que susto!   - Quem é aquele cara? - perguntou Ulisses.
- Eu sei lá.   Quando encontrou a chave correta, destrancou a porta e entrou em casa. Mesmo sabendo que Ulisses podia atravessar portas, não fechou a porta até que ele entrasse, por questão de educação e costume. Depois que ele entrou, fechou a porta e a trancou, usando todas as fechaduras. Afinal, por mais que não demonstrasse, imaginou que, talvez, aquele homem poderia ser uma possível ameaça. Depois que começou a trabalhar com jornalismo começou a desenvolver certas paranoias.
Durante o jantar, Ana e Ulisses conversaram sobre a situação da vida alienígena que nascera da louça suja de algum vizinho. Ana estava sobrecarregada justamente por causa do caos que essa notícia havia causado no jornal onde trabalhava.   - Mas então é sério mesmo essa história, Ana?
- Pior que eu acho que é sim. Ulisses divertiu-se com isso. - Isso vai ser interessante. - Enfim. Ana terminou seu suco de plasma enquanto Ulisses a observava.   - Alexia tomou um porre hoje. - disse Ulisses rindo.
  - O que? - perguntou Ana, perplexa.
- Pois é. - disse Ulisses. E Ana entendeu ali um pedido de desculpas nada sincero. De qualquer forma, Ana estava muito satisfeita, pois o dia no trabalho, apesar de ter sido bastante cansativo, não havia saído de controle. Tinha conseguido dar conta de todas as suas tarefas e sair no horário previsto. No dia seguinte, seria sua folga semanal. A primeira da qual ela usufruiria de verdade nos últimos três anos. Por isso, estava bastante tranquila e, até mesmo feliz naquela noite. Rindo, perguntou onde sua filha estava e seu marido comentou, descontraído, que a adolescente estava dormindo. No dia seguinte. Quarta feira. Ana acordou tarde, conforme havia planejado. Ulisses, para variar, não estava ao seu lado na cama. Como era desde que este havia morrido, há catorze anos atrás. Eram seis e meia da manhã e o quarto ainda estava escuro. As cortinas da janela perto da cama balançavam sutilmente. Através da vidraça cristalina ela observou, ainda bastante sonolenta, mas extraordinariamente contente, as nuvens se moverem lentamente pelo céu. Essas nuvens eram densas e muitas delas pareciam carregadas de chuva. Um vento desceu dos céus para soprar a casa dos Alves e Ana abriu a janela para receber o convidado celestial. Fechou os olhos e respirou fundo, deliciando-se consigo mesma viajando por uma longa estrada deserta, localizada em sua imaginação. Montada na motocicleta herdada de seu marido, ela percorria velozmente o asfalto limpo em direção ao horizonte, no qual se escondia mais uma infinidade de quilômetros em estrada limpa que levava ao nada absoluto. Abriu os olhos, decidida à viajar.   Depois do café da manhã, Ana foi contente até o quintal, na parte detrás da casa, com um dos primeiros livros de seu marido em mãos. O nome do livro era A Casa dos Esquecidos. Ulisses, segundo dizia na introdução, morava em uma casa de madeira, rodeada de árvores, em um recanto distante, mas nem tanto, do centro da cidade. Ele vivia sozinho e não se lembrava da vida que o levou até ali. Ulisses dizia, claramente, e é claro, com o bom humor que lhe era característico, que acreditava ser vítima de algum tipo de amnésia.
  Quando terminou de ler o livro, Ana, intrigada, desceu até o porão debaixo do cemitério. Ao descer as escadas e se encontrar no escuro absoluto, concentrou-se em manter os olhos abertos, afim de fazê-los acostumarem-se com a falta de luz do ambiente. Isso não demorou muito. Logo seus olhos começaram a contornar as formas dos móveis e artefatos estranhos e antigos.
  Os sete anos nos quais Ulisses se fez presente em forma fantasmagórica, foram, igualmente fantasmas para Ana. A presença desse marido transparente não era consistente para ela. Lhe pareceu, então, repentinamente impressionante, que não houvesse tido antes essa percepção. Assim sendo, a moça começou, tardiamente, a questionar certas coisas. Aproximou-se do espelho do canto no final do ambiente. Imerso na escuridão, mas emanando uma fraca luminosidade própria muito suave, que conseguia, impressionantemente coexistir com a escuridão que o rodeava, sem anulá-la. Quando a moça estava de frente para o espelho, começou a observar-se. Começou do topo da cabeça, de onde se desprendiam fios de cabelos loiros encaracolados que terminavam na altura do pescoço. Um par de olhos dourados reluziam na pouco iluminação do lugar e lhe diziam muitas coisas ao mesmo tempo. Ana desviou o olhar de seu próprio olhar no espelho mágico e observou seu corpo inteiro. Usava um bracelete no braço esquerdo, o qual ganhara recentemente de seu pai. Vestia uma blusinha rosa com detalhes transversais pretos e, por cima, uma jaqueta branca sem mangas. Seu umbigo ficava à mostra. Sua pele era morena e seu corpo magro e bem torneado. Usava um shortinho jeans com um cinto preto largo. Ana sentia-se completamente satisfeita com a sua aparência. Contudo, fez força para voltar a olhar seu próprio olhar no espelho. Se sentiu desnuda, sozinha e confusa.
Feixes de luz dourada desciam pela escada, como raios de sol. Ulisses iluminou todo o lugar com seu brilho dourado. Ana sentiu-se como em outro mundo, à anos luz de distância que qualquer lugar.   - Tudo bem, Ana? - perguntou Ulisses.
Ana não respondeu de imediato, baixou a cabeça e passou a língua nos lábios, afim de umedecê-los. Levantou seus olhos dourados para Ulisses e fitou-o gravemente. E então, de repente disse: - Porque não apareceu antes? Porque ficou observando nosso sofrimento à distância? E à uma distância tão curta. Ulisses, pego de surpresa com essa pergunta cortante, respondeu com seriedade: - Eu precisava conhecer o outro lado da minha vida, Ana. Eu observei a minha vida de todos os ângulos e, quando percebi que não havia mais o que ser visto, eu... bom, me apareceu essa oportunidade de ver as coisas do outro lado do espelho. - Como não havia muita coisa à ser visto? Havia eu. Eu não sou o suficiente? Ulisses tentou responder algo. Mas Ana seguiu em suas observações coerentes, pegando Ulisses de surpresa novamente. - O que tinha essa tal de Cibele, que a tornava tão melhor do que eu? Foi com ela que você passou sete anos de sua morte?   Ana encarava Ulisses com um olhar acusador, triste e solitário. Agora era Ulisses quem se sentia desnudo, envergonhado, acusado, culpado e sozinho.
  - Às vezes, Ulisses, eu até penso que você pode ter se deixado morrer para ir ficar junto da Cibele.
  - Pois não duvide disso! - exclamou Snypes, do um canto escuro atrás das escadas, atrás de Ulisses.
  Agora o ambiente estava ainda mais fantástico e distante de qualquer distância infinitamente distante até mesmo do infinito. O espelho emanava uma luz fraca e contida meio arroxeada, enquanto Ulisses cobria todo o ambiente de uma coloração cintilante de ouro, fazendo tudo ali reluzir lindamente. Ao fundo, Conde Snypes cobria a escuridão com seu brilho prata, tornando tudo ao seu redor monocromático, como um filme antigo onde o branco é prata reluzente.
Ana olhou para Ulisses e nesse olhar se lia uma busca por uma explicação e um verdadeiro suspiro de decepção.   Ulisses gaguejou um pouco e então virou-se para Snypes repreendendo-o.
- Cala a boca seu monte de plasma podre miserável!   Ana atravessou o fantasma de Ulisses com a cabeça baixa, chorando, e subiu as escadas para o cemitério.
- Quem é você, afinal de contas? - perguntou Ulisses, quando foi deixado sozinho com o velho fantasma de Snypes. - Agora te interessa, rapaz? - riu Snypes. - É uma pena que você já esteja morto, Sny. - Me matar você não ia. - riu Snypes. - É. Não. - riu Ulisses. Depois ficou sério novamente e advertiu Snypes que não influenciasse mais em sua vida e que ficasse longe de sua família. - Vou fazer um esforço. - debochou Snypes. Ulisses estava de saída, mas se lembrou de algo. Virou-se para encarar o rosto sorridente de Snypes e disse: - Se assim for, terei de me esforçar para manter-me longe da Condessa. Snypes não gostou nada desse comentário. Seu sorriso desapareceu, engolido pela expressão de ódio que tomou conta de seu rosto transparente. - Nós dois temos muitas fraquezas acessíveis. Lembre-se disso, sr. Alves II. Dito isso, Conde Snypes desapareceu na escuridão.






"Educação é o que resta depois que a gente esqueceu tudo que aprendeu na escola."
(Albert Einstein) 

domingo, 23 de junho de 2013

Episódio 3

Madrugada

  Alexia desceu as escadas. Olhou rapidamente para o túmulo de seu pai, enquanto descia as escadas para o grande cômodo que ficava embaixo do cemitério. A menina estava completamente confusa e aflita. Não sabia exatamente porque estava ali embaixo. Estava assustadoramente escuro e as silhuetas das coisas esquisitas que sua mãe mantinha ali embaixo pareciam observá-la, fazendo-a sentir-se uma intrusa. Foi assaltada por um gélido arrepio que lhe fez tremer os ossos e correu para acender a luz. Ligava e desligava o interruptor e nada acontecia. Respirou fundo e observou o ambiente. Seus olhos agora já estavam acostumando com a escuridão e, assim, conseguia visualizar melhor as formas dos móveis estranhos que moravam ali. Se esforçou para se lembrar o que havia ido buscar ali, enquanto caminhava para o centro do lugar. Cercada pelos móveis e adornos esquisitos e exóticos lembrou o que a levara até ali. Uma repentina explosão sentimental que estava guardada dentro dela desde que começou a ter consciência de que existia. Uma necessidade que crescia dentro dela desde seus quatro ou cinco anos. Alexia queria extravasar sua alegria. Estava guardando energia desde sempre e nunca deixava essa força fluir. Sempre que pulava, correria ou dançava, era comedida. Seu pescoço doía pela tensão aplicada na musculatura para que a cabeça se mantivesse frequentemente em uma posição que não fizesse sua franja mudar de posição. Arrumava o vestido o tempo inteiro. Fazia um esforço vinte vezes maior que qualquer pessoa para fazer coisas comuns, como levar o lixo para fora, conversar, andar ou sorrir, pois depositava a cada uma dessas simples práticas cotidianas uma rigorosa atenção para que fossem concluídas da melhor maneira possível. Assim, não conseguia manter um diálogo normalmente, pois tinha que pensar muito antes de responder, para que a resposta fosse correta e agradasse à si mesma e ao seu interlocutor. Assim sendo, Alexia vinha acumulando uma angústia dentro de si desde criança e, agora, com seus dezessete anos, com as dúvidas e ansiedades naturais da adolescência, seu corpo compacto e delicado, se tornou sufocantemente pequeno para tanta força querendo escapar. Deixou a monstruosa força desconhecida que havia dentro dela esvair lentamente e se misturar com o obscuro desconhecido que parecia emanar daquele local de sombras e mistérios.
  Quando Ulisses finalmente chegou ao porão sob o cemitério, iluminando com sua luz dourada todo o ambiente, encontrou um par de olhos claros e brilhante. Só não pode perceber, de imediato, que aqueles olhos estavam fascinados pela luz que o espírito de Ulisses emanava naquele lugar de trevas. Alexia estava encolhida em um canto, entre a adega de madeira que Ulisses trouxera da França, quando lá esteve, e a estátua do gárgula. Ao menos parecia um gárgula. Ulisses nunca se deu ao trabalho de se preocupar com o que aquilo de fato era.
  - Está tudo bem, filha?
Alexia sorriu e, somente agora seu pai percebeu a garrafa de vinho ao lado da menina.
  - Posso? - perguntou Ulisses.
  Alexia balançou a cabeça afirmativamente e Ulisses pegou a garrafa. A garrafa não ficava firme, flutuava sob os dedos do fantasma.
  - Gostou desse, filha?
  Alexia apenas sacudiu a cabeça, dizendo que sim.
  - Que bom. Foi caro pra caramba, sabia? - Disse ele, rindo sonoramente.
  A menina também riu.
  - Eu nunca havia bebido nada alcoólico antes. - revelou a menina.
  - Sério? Nossa, presenciei uma primeira vez sua!
  Dito isso, Ulisses ergueu a garrafa.
  - Um brinde à isso! - e bebeu do gargalo, passando, em seguida, a garrafa para a menina.
  Alexia pegou a garrafa e tomou um longo gole.
  - Nossa. - começou Ulisses. - eu perdi tanta coisa.
  Houve uma pausa, na qual pai e filha compartilharam de um mesmo sentimento amargo, sensível e promissor.
  - Na verdade, não perdeu muita coisa.
  - Como não, Alexia?
  A menina tomou mais um longo gole da bebida, deixando apenas um quarto do vinho na garrafa e passou o recipiente alcoólico para o pai.
  - Em mim, você só veria silêncio. E em mamãe, somente estresse. Mas, curiosa e interessante deve ter sido sua vida... ou morte. Sei lá como chamar sua situação.
  - Hmm. Eu não sei se palavras como vida e morte podem definir qualquer estado da existência de alguém precisamente.
  - Algo me diz que eu estou longe de compreender o que você está prestes a começar a me comunicar. - disse isso sorrindo,   Alexia.
  Ulisses sorriu, satisfeitíssimo, e respondeu:
  - Você tem toda razão, Alexia.
  Cada um bebeu um gole generoso e terminaram aquela garrafa de vinho. Ulisses aconselhou Alexia a não abrir uma nova. Porém, visto que a menina insistiu, ele a fez beber meio litro de água antes. A menina obedeceu, e então, abriram uma outra garrafa e continuaram a conversa, que foi muito esclarecedora para Alexia. Ela nunca havia pensado na vida e na morte como uma coisa só. Como algo bom e harmonioso. Ulisses, pela primeira vez em sua existência consciente, teve um momento de proximidade com sua filha, e por isso, estava extremamente feliz. Afinal, no fundo, não conhecia ninguém direito. Havia conhecido Ana de repente, casou-se com ela rapidamente e morreu logo depois. De fato, era a primeira vez que conversava com Alexia de verdade. Até então, desde que se apresentou como seu pai na festa de sete anos da menina, apenas convivia com ela.




""Mas tenho de matá-lo", murmurou o velho. "Em toda a sua grandeza e glória. Embora seja injusto. Mas vou mostrar-lhe o que um homem pode fazer e o que é capaz de agüentar. Eu disse ao garoto que era um velho muito estranho. Agora chegou a hora de prová-lo.""
(Ernest Hemingway, em O Velho e o Mar) 

domingo, 16 de junho de 2013

Episódio 2


Urgência

       Ansioso, Ulisses atravessou a porta do escritório solitário do terceiro andar, onde caminhava em um eterno círculo de nostalgia há horas. Desceu as escadas sem tocar os degraus, flutuou até a varanda do segundo andar e deixou-se cair vagarosamente, atravessando o piso madeirado, surgindo do teto da cozinha. Parou lentamente na cadeira vazia da cozinha. Ana e Alexia tomavam um animado café da manhã.
       - Não critiquem minha entrada triunfal, família.
       Bem humoradas, as duas riram.
       - Cresce. - disse Alexia.
       - Eu queria virar gente. Literalmente. Mas você não me facilita, queridinha.
       Após o silêncio irritante que se seguiu, Ulisses disse:
       - Enfim. Eu soube que você está escrevendo um novo livro, Alexia.
       A menina ficou indignada e quase engasgou com o suco que bebia.
       - Você andou me bisbilhotando em meu quarto? - gritou.
       - Eu não. - respondeu o fantasma, calmamente. Ana se limitava a esvaziar lentamente, através do canudinho vermelho, sua caixinha de suco. Olhava de um para o outro, com as sobrancelhas ligeiramente erguidas.
       - Então como você sabe disso?
       Alexia levantou-se para sair, mas enquanto colocava a cadeira no lugar, aguardava, com olhos furiosos, a resposta do pai.
       - Snypes me contou.
       Alexia retomou o controle de seu humor e ao invés de gritar furiosamente e lançar a cadeira, que ainda segurava, pela janela da cozinha, conforme gostaria, permaneceu apenas perplexa.
       - Aquele fantasma nojento.
       Virou-se e sumiu da cozinha com raiva.
       - É um babaca mesmo, aquele Snypes. - afirmou Ulisses para Ana, que sacudiu os ombros mostrando neutralidade. Mas, na verdade, não gostou nem um pouco da ideia daquele velho fantasma encardido entrando no quarto de sua filha à noite e espiando o que a menina fazia.
       - Tenho que ir, querido. Está um caos no trabalho. Surgiram boatos de que formas de vida alienígena brotaram da louça suja de uma casa do bairro. - disse Ana, levantando-se apressadamente e jogando a bolsa no ombro.
       - Não ouvi nada a respeito. - respondeu o marido, divertindo-se com a novidade.
       - Ah, vai ouvir o barulho que isso vai gerar. Logo, logo.
       - E qual a sua opinião à respeito disso, Ana?
       - Eu não acredito. Acho que são boatos bobos.
       Com pressa, despediu-se e saiu da cozinha.

       No final da tarde, enquanto o mundo afundava em um sonho lilás róseo e apaixonante, Alexia olhava através da vidraça da janela e observava um homem de terno preto visitar a casa do outro lado da rua. A menina se deu conta, com certa tristeza, de que não conhecia nenhum de seus vizinhos. Se imaginou com um binóculo em mãos vigiando a rotina da vizinhança para, no momento oportuno, como quem não quer nada, aproveitar, ou até mesmo criar, uma situação em que pudesse introduzir-se e cumprimentar algum deles. Enquanto isso, o homem do terno preto interrogava a sua vizinha da frente. Infelizmente, Alexia não conseguia ver a vizinha da frente, pois a varanda do andar de cima cobria a pessoa da cintura para cima. Alexia se lembrou, de repente, que haviam se passado sete anos desde que seu pai lhe presenteara, em seu aniversário de sete anos, com uma lâmpada mágica. Agora, em seus catorze anos de idade física e seus séculos de idade mental, compreendia que seu pai lhe havia feito uma desesperada, porém sutil e delicada, solicitação de resgate. Naquela manhã, durante o café da manhã, ele havia claramente dito que gostaria de voltar à vida carnal. Estava tudo nas mãos de Alexia. Agora, seria ela a lhe dar a vida. Quantas pessoas no mundo tinham a oportunidade de dar à luz seu pai? Ela não conhecia ninguém com esse privilégio. Sorriu diante essa possibilidade inusitada, enquanto o homem de terno preto, na calçada do vizinho, acendia um cigarro cuja fumaça espiralava lindamente para os céus.

       Ulisses tinha tanto o que pensar, que preferiu não pensar em nada. E o nada, lhe parecendo vazio, lhe preencheu de alívio e urgência. O que lhe trouxe dúvida e inquietação. Queria ir procurar Conde Snypes e irritá-lo a ponto de este perder a razão e permitir à Ulisses a deliciosa perda da noção. Gostaria, também, de ir até o quarto de sua filha e conversar com ela sobre tudo e sobre nada. Queria fumar um cigarro ou beber uma bebida forte, mas, ao mesmo tempo, gostaria de saber que não beberia e nem fumaria nada. Subiu, então, flutuando livremente até o telhado. De lá viu sua filha correndo, à meia noite, sob uma chuva espessa e bem intencionada, pelo cemitério particular da residência. Ela parecia tão cheia de vazio quanto ele.





"Gostei de saber que estás buscando uma vida confortável em Karlsbad e conseguindo escrever, pois acredito que esta, para ti, é a melhor combinação. E deve ser muito bom escrever alguma coisa."
(Anna Freud em correspondência a seu pai Sigmund Freud, no livro Correspondência, organizado por Ingeborg Meyer-Palmedo) 

sábado, 8 de junho de 2013

Episódio 1

Lacuna

O tempo parecia não passar, quando, finalmente, Alexia viu aquela calda invisível atravessar o gramado bem cuidado, acariciando a grama com suas mãos fantasmagóricas. Com o olhar, a menina seguiu o movimento da grama alta até se deparar com as gélidas cercas negras que protegiam-na do cemitério no canto do quintal. Sentada nos degraus da escada, olhava tristonha a hipnotizante dança da água no pequeno lago no outro do quintal, enquanto o vento brincava com suas longas mechas loiras. Não conseguia se concentrar em nenhum pensamento específico. Viajava pelas ramificações de cada ideia que lhe vinha à mente. Quando pensava nas águas do lago à sua frente, lembrava-se da vara de pescar, que poderia pegar na garagem e se distrair. Mas quando lembrava da vara de pescar na garagem, não podia evitar de se deparar com a imagem da moto de seu pai que repousava como uma rainha luxuriosa em sua morava automobilística. E assim, ao pensar na moto de seu pai, obviamente, lembrava-se de seu pai.

- Quer parar com isso? Só porque você pode atravessar as malditas portas, não quer dizer que você precise fazer isso o tempo todo! - disse Ana, repreendendo Ulisses pela quinta vez naquele dia, pelo mesmo motivo.
- Quando sua filha resolver me por em meu corpo novamente, eu prometo voltar a usar maçanetas.
- Eu já falei com ela.
  - E ela?
Ana suspirou.
- Acho melhor você ir falar com ela.

Ulisses estava indo falar alguma coisa com sua filha quando encontrou um mosquito na cozinha. Lembrou-se de que os mosquitos tinham cerca de um mês de vida e percebeu que nunca, em seus catorze anos de vida morto, havia visto um fantasma de mosquito. Isso lhe intrigou profundamente. Decidiu, portanto, passar o resto do seu tempo livre vigiando aquele mosquito até o momento da morte do inseto.

Alexia passou suas férias escolares investindo em sua habilidade de pintura. Deixou sua mente livre, leve e solta. Viajou pelas ramificações obscuras de seus pensamentos incertos e deixou o resultado deslizar pelos seus dedos, através do pincel até as telas em branco por todo o mês de julho. Sua concentração estava afiada e, consequentemente, sua alienação à família estava fisgando Ana e sufocando o fantasma dourado de seu pai, quando este, não estava correndo atrás do mosquito.

- Querida Alexia. - Iniciou Ulisses durando o café da manhã. - Gostastes de meu presente de aniversário de sete anos atrás?
A adolescente balançou a cabeça afirmativamente ao mastigar seu cereal matinal.
Sem conseguir se conter, Ulisses perguntou:
- E você utilizou?
  - O que?
Perguntou a menina, para ganhar tempo.
- O acelerador de partículas! - respondeu Ulisses, ironicamente.
Ana riu.
Visto que Alexia apenas continuou a comer seu cereal sem nada responder à piada do pai, Ulisses insistiu.
- Você esfregou a lâmpada mágica, garota?
Alexia engasgou levemente por causa da pergunta direta. Ana arregalou os olhos para Ulisses rindo, surpresa.
  - Eu esfreguei ela na sua frente. Não lembra, pai?
  Ulisses fingiu que fazia esforço para se recordar do momento em que a pequena Alexia, então com sete anos de idade, passava a borda do vestido vermelho na lâmpada mágica e libertava a genia de sua prisão desconfortável.
- Vagamente. - respondeu.
Alexia olhou para seu pai e sorriu. E então, todos riram na mesa, felizes.




"Numa cidadezinha remota, nasce uma donzela que se manterá imaculada dos erros comuns de sua geração: uma miniatura, no meio dos homens, da mulher cósmica que desposou o vento."
(Joseph Campbell, em O herói de Mil Faces) 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Elenco de A Cidade dos Esquecidos

       

       Muito embora eles não saibam disso, esses são alguns dos atores e atrizes que um dia (talvez) interpretarão os personagens de A Cidade dos Esquecidos nos cinema ou em uma série de TV.







quinta-feira, 30 de maio de 2013

Estreia da 2° Temporada de A Cidade dos Esquecidos


       A segunda temporada de A Cidade dos Esquecidos estreia no dia 7 de junho (sábado). Não se esqueça de recordar a memória de lembrar-se dos esquecidos.

       Agora que Alexia tem em mãos o objeto capaz de trazer seu pai de volta à vida humana, as possibilidades são duvidosas.




"Emocionante, genial, extremamente ensaboada e tradicionalmente esquiva. Em outras palavras, quero uma cerveja."
Ulisses Alves

"Excelente para quem tem pouco tempo e má memória. Assim, o leitor pode se esquecer das baboseiras que leu assim que trespassar o ponto final de cada episódio."
Ulisses Alves


Ulisses Alves